Viajar com propósito
-------------- Ana Teresa Fonseca
Altar alusivo às águas e celebração das Deusas no período celta Litha. Por Ana Teresa Fonseca
A nossa viagem como Sacerdotes da Mãe Terra começou em Novembro de 2019, no Templo do Amor em Alcobaça, formados durante dois anos por Lieveke Volcke, Sacerdotisa de Riannon, pelo Templo da Deusa de Glastonbury. Poderia dizer que a minha jornada começou aí, mas seria mais correto referir que começou no ínicio deste século, no ano de 2003, com o filme As Brumas de Avalon. Um filme adaptado do livro de Marion Zimmer Bradley, que revisita a lenda do Rei Artur focando no ponto de vista das mulheres místicas e poderosas que operavam nos bastidores do poder em Avalon. Mulheres, Sacerdotisas que viviam entre dois mundos separados pela bruma. Faziam a travessia de barco até ao centro do lago e atravessavam as brumas, para chegarem à Ilha de Avalon, onde tinham os seus templos e casas, e se dedicavam a estudar, honrar, perpetuar a sabedoria e mistérios da Deusa. Desde então que o meu sonho era de conhecer esta ilha. Muitos poderão pensar que é um mito, tal como a história do Rei Artur, mas esta ilha “reside” no condado de Somerset em Inglaterra, numa pequena vila chamada de Glastonbury, onde uma comunidade mantém viva a tradição, a história e o culto, recebendo peregrinos de todo o mundo, quem sabe se inspirados da mesma forma que eu.
Num mundo onde precisamos de classificações para tudo, e muitas das vezes relacionado com as ciências do oculto, religião ou crença, partilhamos qual o nosso papel enquanto Sacerdotes. Mais do que um curso, uma formação ou qualquer outra denominação semelhante, este caminho, este modo de vida é um comprometimento conosco e com os ciclos e ritmos da natureza, com este planeta que nos acolhe e que nos mantém em vida, criando as condições necessárias para que isso seja possível.
Neste planeta a que chamamos de Terra, ou Gaia, podemos observar a constante transformação, desde o seu centro até à superfície. É vivo em toda a sua extensão e propriedade, com eixos de rotação sobre si próprio e de translação em torno do sol. Reúne um satélite do qual também recebe influência, e encontra-se integrado em primeira instância num sistema solar, mas se olharmos com maior extensão faz parte daquilo a que chamamos universo, um sem fim de possibilidades e de mistérios ainda por descobrir.
Um planeta com polaridades, dividido em hemisférios pela linha do equador, apresentando estações e ritmos opostos concomitantemente, o próprio vivendo em dualidade e opostos, como duas faces gémeas, luz e sombra. Vejamos senão o exemplo do tempo atual, o que é hoje o Solisticio de Verão em Lisboa, hemisfério Norte, o ponto mais alto de luz solar, é por oposição o Solisticio de Inverno , a maior quantidade de escuridão, em São Paulo, hemisfério Sul.
Partilhamos esta existência com outros reinos como o mineral, o vegetal e o animal, sem grande consciência dos mesmos, e que apresentam também um papel de grande importância neste imenso ecossistema do qual fazemos parte. Integrados e muitas vezes desligados de tudo isto, nasce este projeto de viagens com propósito. Por hora, integradas nas mudanças estivais e nas suas conhecidas celebrações, proporcionamos jornadas de um dia memóravel em alguns pontos de Portugal. Porque a Deusa e a Terra são a mesma expressão, e no território lusitano encontra-se também presente.
Enquanto Sacerdotes da Mãe Terra inspiramo-nos na tradição celta, e na sua Roda do Ano, nas mudanças de estações e nos movimentos ciclícos da Terra. No entanto, recebemos influências de várias culturas universais e do movimento do cosmos e das estrelas. Integramos várias sabedorias orientais e ocidentais e caminhamos no sentido de as integrar e falar uma linguagem universal. Queremos dar luz a todos os nomes, a todos os atributos e integrar ao invés de fragmentar, O mundo está cheio de guerras e conflitos, e o caminho começa dentro de cada um de nós e na forma como gerimos as nossas próprias guerras e conflitos.
Tomar consciência do que nos condiciona, limita e dificulta é uma chave importante nesta caminhada. Resgatar o melhor de nós, as qualidades e atributos únicos, juntar e não fragmentar parece-nos um percurso de podemos percorrer com sucesso, e integrando estas linguagens universais acreditamos que é possível. Usando estes movimentos ciclícos predispomo-nos a escutar a sabedoria da natureza e integrá-la na nossa vida. Porque uma floresta também se recompõe após um incêncio, também nós nos podemos reerguer após uma queda e curarmo-nos.
A estação que agora entramos é do Verão, a que a tradição celta apelidou de Litha, deriva do termo anglo-saxão antigo para "meio do verão", um período onde a luz solar é abundante, e podemos contar com a presença de calor e a plenitude de tudo o que a natureza tem para nos proporcionar.
Litha é água, é luz, é expansão. A luz ilumina a sombra e torna-a visível. Imaginem uma casa fechada por muito tempo, sem movimento, em que um dia alguém abre a janela, ou acende novamente a luz para entrar. Vamos ver todo o tipo de sujidade que por tanto tempo se acumulou, mas até encontrar esta iluminação, tudo parece estar sossegado e sem grandes alterações. Litha pode ser visto como o estado de consciência em que acendemos a luz, porque os movimentos externos continuos de aumento da luz solar nos fazem ter a força que precisamos para ver as sombras. Caminhar em litha é acolher na luz que somos as sombras do dia a dia, integrando-as como parte de nós, e dando-lhes um lugar ao invés de lutar contra elas. A sombra é algo que nos pode paralisar, ou contrariamente levar a uma fuga, pode colapsar o mundo em nosso redor, ou fazer-nos reagir e lutar ou até mesmo tornar-nos submissos. Enquanto perpetuamos estas sombras não integradas arrastamos todo o tipo de situações e vivências que inconscientemente nos recordam delas.
Então, caminhar com as águas é mergulhar nas profundezas internas e encontrar partes que muitas vezes não queríamos ver. Partes que podemos não nos recordar, ou que não gostaríamos de revisitar. É sair da zona segura que delimitámos à nossa volta e compreender aquilo que elas nos ensinam, tornando-as as nossas maiores aliadas, num lugar de luz.
A consciência da água ressoa em cada um de nós, e enquanto grupo ressoa em todos, ativando uma consciência maior de cura, de empatia, de amor. A representação individual de cada um é a chave para todos, e vice versa. A água mostra, a água flui, a água quebra, leva, limpa, mas também estagna, cristaliza e destroi. O que está fora é o que está dentro e tudo isto é possivel no mundo exterior, mas também no interior.
Somos a luz e a sombra, porque tal como a Terra vivemos a dualidade, somos o Sol e Lua, somos o Sul e o Norte, somos os polos que se atraem magnéticamente. Integrar que somos tudo isto é parte do caminho para chegarmos mais perto de quem somos verdadeiramente, e encontrar
dentro as respostas que por tanto tempo podemos ter procurado fora.
Não há um só caminho para a alquimia da consciência, mas as águas podem acelerar este processo.
Reunirmo-nos e celebrar tudo isto é uma forma de reconhecer algo que já existe, remete-nos para costumes antigos de várias culturas, para velhas tradições em que a oração não era mais do que um agradecimento de algo que já tinha acontecido. Toda e qualquer cerimónia que realizamos é o culminar de um processo que já se encontra em curso.
Viajar com propósito é mais do que uma cerimónia, é uma celebração daquilo que vivemos diariamente, daquilo que fomos, mas também do que caminhamos para ser. No aqui e agora, podemos caminhar estes tempos e sermos quem verdadeiramente viemos ser, mesmo que por um momento.
Que as águas iluminem o vosso caminho.
Assim é.
-------------- Ana Teresa Fonseca
Altar alusivo às águas e celebração das Deusas no período celta Lammas. Por Ana Teresa Fonseca
Nos tempos antigos, há cerca de 3000 anos a.c., a astrologia antiga conectava as quatro estrelas persas aos equinócios e solstícios devido à precessão dos equinócios na época.
As “Estrelas Reais” (Aldebaran, Regulus, Antares e Fomalhaut) guardavam os cantos do céu, tendo sido recentemente associadas às constelações fixas do zodíaco (leão, touro, escorpião e aquário), e torna-se interessante observar como na atualidade correspondem exatamente aos quatro festivais celtas de meio de estação (cross-quarter days).
Regulus (Leão) & Lammas / Lughnasadh (1 de Agosto), situam-se no coração do Leão e regem o meio do verão no Hemisfério Norte. O período de Lammas celebra a primeira colheita e o poder da soberania solar, alinhando-se diretamente com o arquétipo de coragem, liderança e abundância de Regulus. Lammas corresponde ao ápice do elemento solar.
Num movimento contínuo da terra, o movimento ocorre igualmente dentro de nós. A força de viabilização na terra, provém do masculino e do feminino, da união dos dois; da coragem, força e fé, e do sentir, da criação e gestação.
A energia dos progenitores faz-se presente nas primeiras colheitas, com a predominância dos grãos e dos frutos, e diversas celebrações por todo o mundo em gesto de gratidão e partilha em comunidade.
Este movimento contínuo de gestação e de colheitas da Terra, recorda-nos da importância da partilha, da honra pelas nossas conquistas e das nossas características únicas que se podem renovar a cada ciclo, e da nossa missão pessoal enquanto caminhantes nesta experiência na Terra.
A tapeçaria contínua, inspira, alimenta, sustenta e equilibra, deixando-nos disponível tudo aquilo que necessitamos para continuar.
Lammas trouxe-nos a viagem até ao centro de Portugal, até ao seu coração e a um lugar de peregrinação e de profunda conexão com o Divino.
Sob oliveiras e carvalhos encontrámos a serenidade dos campos, envolvidos pela natureza, conectamo-nos com o nosso Anjo interno e com as nossas capacidades adormecidas. Partilhámos o pão como antigamente num ritual de entrega e comunhão, passando-o de mão em mão, proveniente dos cereais, o fruto da primeira colheita.
Honrando quem nos deu a vida, abraçamos a linhagem materna, sendo acolhidos pela força universal da mãe, mas também abrimos espaço para a honra à linhagem paterna, o masculino ferido que ainda acompanha a nossa jornada.
Alinhados com os céus, reverenciamos Sirius e a sua conexão com o Egipto antigo e a subida das águas do Nilo, que provinha a rega necessária para a fertilidade nos tempos seguintes. Conectados com esta energia permitimos que as nossas águas transbordassem para que os tempos vindouros beneficiassem de solo fértil e nutrido. Esta comunhão com a Terra permite-nos reconhecer os mistérios internos através do mundo exterior. Concede a gentileza de voltar a respirar e a focar no momento presente, a descontrair e a aproveitar tudo aquilo que temos ao nosso dispor, sem pressas, sem julgamentos, apenas a essência.
Conectados com a sabedoria interna e intuição, evocámos o arquétipo de Shiva, que quando utilizado nos recorda os poderes da criação, preservação e destruição. A escolha que o humano detém em suas mãos, navegando entre os domínios do ego, da ilusão, dos desejos ou medos, ou pelas águas da purificação, sabedoria, verdade, honestidade, amor e coragem.
Lammas ilumina o que está adormecido, as lealdades que carregamos daqueles que vieram antes, das memórias e de outras possibilidades, mas também nos recorda de que tudo o que plantamos com Amor, pode começar a florescer.
-------------- Ana Teresa Fonseca
Altar alusivo às águas e celebração das Deusas no período celta Mabon. Por Ana Teresa Fonseca
A Roda gira e volta a girar, em cada ciclo uma nova energia se anuncia, no entanto, os restantes períodos não deixam de existir. Isto é aquilo a que chamamos de ciclo interminável, que se renova e autossustenta. Mabon corresponde ao período com início no Equinócio de Outono, onde a luz do dia e a escuridão da noite têm as mesmas proporções. É o segundo momento da roda em que podemos sentir este ponto de equilibrio, que à semelhança da Primavera, pode representar um período de desafio para o corpo, sobretudo em alergias e na parte respiratória. Estas questões fazem-me pensar acerca da adaptação que o corpo necessita de fazer a estas estações, com as suas variações climáticas, não só a nível físico, mas também no estado emocional e mental. Com a chegada do Outono, muitas vezes observamos a melancolia de ver a natureza que nos rodeia começar a adormecer. Após as colheitas, as árvores despem-se das suas folhas, a vegetação apresenta uma paleta de cores castanho, avermelhado, laranja, e ainda algum verde nas zonas mais húmidas, as horas de luz solar começam a diminuir lentamente, e com tudo isto também nós vamos sentindo, mesmo que inconscientemente a abscisão (queda natural folhas), a mudança dos tons, e a aproximação das sombras.
Quanto mais nos distanciamos da natureza, mais sentimos estas mudanças, podendo até mostrar alguma resistência e incompreensão daquilo que são os ciclos naturais da vida na Terra.
O outono é a estação de abundância, com o cheiro a terra molhada das primeiras chuvas, com o rasto de folhas levadas pelo vento que cobrem o chão em múltiplas tonalidades, a preparação para o inverno que se aproxima. Ainda com alguns dias de calor, com algumas tardes soalheiras, vamo-nos despedindo do verão e abraçando a energia da Terra.
Esta é o momento de honrar o chão que pisamos, o planeta que nos dá tudo aquilo que precisamos, e que contém ao mesmo tempo a energia da inocência, dos potenciais, do amor, da compaixão, do acolhimento, da transformação e do silêncio. Nada é uma coisa só, e tudo existe ao mesmo tempo em múltiplas realidades que colidem, tal como a aurora boreal, em que ventos fortes solares que colide com a magnetosfera refletindo uma paleta de cores celestes e que capta diversos olhares curiosos e de espanto por todo o mundo.
É tempo de honrar os elementos da criação e da alquimia, a terra, o fogo, a água e o ar. Honrar os reinos que habitam o planeta para além do homem, os minerais, os vegetais, os animais e, nos planos invisíveis, o dévico (fadas, gnomos, silfos, ondinas, dragões, salamandras, sereias, entre outros). Honrar as divindades a quem lhes foi associado atributos como beleza, abundância, cura, proteção e de uma forma geral a ligação com a Terra ou a sua representação.
Momento de nos juntarmos em celebração e partilha, permitindo que a colheita nos inspire a agradecer, a libertar o que já cumpriu o seu ciclo e a abrir espaço para o novo que floresce.
Que, neste Mabon, leves contigo a gratidão pelo que floresceu, a coragem de libertar o que cumpriu o seu ciclo e a abertura para acolher o novo.